Estimam-se em 25 mil os portugueses que sofrem de doença inflamatória do intestino, nas duas faces com que se apresenta – a doença de Crohn e a colite ulcerosa. Dela fala-se ainda muito pouco, não obstante não ter cura e afectar grandemente a qualidade de vida dos doentes.
Chama-se Doença Inflamatória do Intestino mas, na realidade, não se trata de uma mas de duas doenças, com tantos traços em comum que, por vezes, dificultam o diagnóstico. São ambas doenças crónicas, de causas desconhecidas e de prognóstico não muito favorável. São ambas muito incapacitantes, manifestando-se em episódios alternados de crise e remissão. Sem cura, é no entanto possível controlar a sua evolução, mas também é certo que uma e outra são recorrentes. Em comum têm ainda o facto de não distinguirem entre sexos, tanto afectando homens como mulheres, quase sempre em plena idade adulta, entre os 20 e os 40 anos. Assim são a Doença de Crohn e a Colite Ulcerosa. Juntas, põem já em risco o intestino de uns 25 mil portugueses.
Pela sua prevalência, e porque se sabe que a Doença Inflamatória do Intestino regista um crescimento galopante nos países industrializados, convém conhecer mais em pormenor as suas duas faces.
Doença de Crohn
Trata-se de uma inflamação crónica que pode afectar qualquer segmento do tubo digestivo, mas que compromete mais frequentemente o intestino delgado no seu segmento terminal – o íleo. Não sendo uma doença contínua, isso significa que coexistem no intestino zonas doentes com zonas sãs. Nos segmentos inflamados, o que acontece é um aumento da espessura da parede intestinal e o consequente estreitamento do espaço interior, o que dificulta a passagem de alimentos. Esta estonose pode mesmo conduzir a obstrução intestinal e formação de fístulas. Nos casos mais graves, pode ocorrer perfuração intestinal, além de que as lesões podem evoluir para um cancro no intestino.
Dado que qualquer segmento do tubo digestivo pode ser afectado, são variados os sintomas desta patologia. Mas os mais comuns são diarreia, emissão de fezes com muco e dor abdominal. Febre e fadiga são também frequentes, sendo que, em consequência das dejecções frequentes, o doente pode apresentar um quadro de desidratação e perda de peso, ou mesmo de anemia. Basta dizer que o doente chega a fazer 10 dejecções diárias.
Este é, naturalmente, o ponto de partida para o diagnóstico, a confirmar com a realização de exames clínicos e laboratoriais, nomeadamente análises, radiografias e uma colonoscopia (visualização do intestino, mediante a introdução no anús de um tubo de borracha com uma câmara, instrumento que também permite retirar amostras de tecido para uma biópsia).
Não é um diagnóstico fácil, até porque existe um conjunto alargado de patologias que podem simular adoença de Crohn – hemorróidas, desinteria bacteriana, tuberculose intestinal, infecção do intestino por fungos, entre outras. Uma vez alcançado, e na ausência de cura, o procedimento médico consiste na adopção de medidas para controlar a doença, o que passa por terapia medicamentosa com efeito anti-inflamatório. Em complemento, pode ser necessário compensar o doente do ponto de vista nutricional, dado o risco de desidratação e anemia. Nos casos mais severos, recorre-se à cirurgia, para remover os segmentos afectados, de modo a permitir o trânsito intestinal. Todavia, a cirurgia não impede que a inflamação possa reaparecer e esta é uma das características mais graves da doença, fazendo com que o prognóstico não seja muito favorável. Com a progressão da doença, aumenta o risco de vida, estando a mortalidade geralmente associada a uma peritonite ou septicémia (infecção generalizada).
Colite ulcerosa
Esta doença inflamatória do intestino partilha a maioria dos sintomas com a doença de Crohn – dejecções diarreicas, frequentemente com sangue, dor semelhante a uma cólica abdominal, desejo urgente de evacuar e, ocasionalmente, dores nas articulações e lesões na pele. O que a diferencia é o facto de afectar a camada interna (mucosa) que reveste o intestino grosso, localizando-se mais frequentemente no recto. O que acontece é que a mucosa fica inflamada, apresentando pequenas feridas à superfície (úlceras) que podem sangrar. Além disso, a mucosa inflamada produz uma quantidade excessiva de muco, o lubrificante intestinal, que pode conter pus e sangue. Aliás, as hemorragias são frequentes, sendo mais evidentes quando a doença afecta o cólon e o recto.
Outro aspecto que distingue a colite ulcerosa da doença de Crohn é o facto de a inflamação ser contínua, sem espaços livres, embora de gravidade variável. Assim, pode oscilar entre uma infecção ligeira, centrada numa pequena zona do recto (proctite), até uma forma mais grave, que abarca todo o cólon (pancolite), existindo um claro risco de complicações. Nalguns casos, a parede do cólon é tão afectada que se distende ao ponto de os seus movimentos desaparecerem. Esta situação – cuja designação médica é megacólon tóxico – requer o internamento do doente, sendo muitas vezes necessário extirpar todo o cólon. Outro risco significativo é o de aparecer um cancro na zona afectada, um risco acrescido quando a doença tem dez ou mais anos.
Com uma forma de diagnóstico semelhante à da doença de Crohn – análises, radiografias, endoscopia e biópsia – a colite ulcerose é uma patologia de prognóstico incerto, dado (ainda) não existir um fármaco que controle com eficiência as crises mais agudas. Esse é, no entanto, o objectivo dos tratamentos, bem como evitar as recidivas da doença. Corticóides, antibióticos e imunosupressores fazem parte do leque de substâncias farmacológicas disponíveis para controlar uma patologia que é mais frequente nos adultos entre os 20 e os 30 anos, mas que conhece um outro pico entre os 60 e os 80, tanto em indivíduos do sexo masculino como feminino.
Como estamos perante doenças do tracto digestivo convém vigiar a alimentação. Não há alimentos proibidos, cabe a cada doente identificar aqueles que tolera melhor e, a partir daí, elaborar uma dieta equilibrada. Há, no entanto, algumas regras saudáveis: evitar alimentos que contenham muita fibra (como os cereais integrais), moderar o consumo de gorduras, beber muita água, comer lentamente e não fazer refeições abundantes. Dado que as diarreias frequentes podem implicar má absorção dos nutrientes e até um défice nutricional, pode haver necessidade de suplementos orais.
A inespecificidade dos sintomas de uma e outra doença – não esqueçamos que podem ser confundidos com patologias mais comuns e que em cerca de 10% dos casos não se distinguem sequer uma da outra – faz com que, muitas vezes, o diagnóstico seja tardio. Daí a importância de não se menosprezarem os sinais, mesmo que pareçam passageiros. Tanto mais que são doenças crónicas que surgem em pessoas jovens, sem qualquer causa identificável. E que, além disso, podem manifestar-se precocemente, podendo comprometer o desenvolvimento do indivíduo.
Pouco se pode fazer para prevenir a doença inflamatória do intestino, qualquer que seja a sua face. O que há a fazer é tentar controlá-la, aceitar que esta é uma doença que não se vence definitivamente, aproveitando ao máximo as tréguas entre cada crise.
Artigo publicado na revista FARMÁCIA SAÚDE, n.º 87 - Dezembro 2003, pág.s 18 a 20, propriedade da ANF - Associação Nacional de Farmácias, Editor: LPMcom Marketing Institucional