Vaticano: Papa apoia vida sexual e amorosa de deficientes
- João Paulo II quebra tabu da Igreja e da própria sociedade e sai em defesa do direito ao afecto das pessoas com deficiência
0s «filhos de um deus menor» têm agora um grandedefensor: João Paulo II. Numa carta ao congresso mundial sobre deficiência, em Roma, o Papa reclama, defende e abençoa a vida sexual e amorosa de todos os que não têm capacidades físicas ou mentais como os outros, ou que sofrem de distúrbios mentais sérios. É uma iniciativa inédita do seu pontificado e da própria Igreja romana e um reconhecimento do direito ao amor e à vida sexual, que João Paulo II não condiciona explicitamente ao casamento.
«A pessoa deficiente tem uma necessidade de afecto igual a qualquer outro ser humano no mundo: o mesmo desejo e necessidade de amar e ser amada, de ternura, de proximidade, de intimidade». Foram palavras pronunciadas pelo Papa durante o simpósio «Dignidade e direitos da pessoa com handicap mental ou físico».
«Os direitos humanos não são privilégio dos sãos. Uma atenção particular deve ser dedicada aos cuidados e problemáticas das dimensões afectivas e sexuais das pessoas com handicap», declarou João Paulo II, deixando para trás uma atitude repressiva que durante séculos foi adoptada pela maioria dos institutos religiosos, o Sumo Pontífice apoia assim as teses de médicos, psicoterapeutas e sexólogos sobre a afectividade dos diminuídos físicos e mentais.
0 Papa não aborda nenhuma consequência prática, mas afirma claramente um princípio que poderá ter consequências importantes, já que se pronuncia sobre uma questão até aqui tabu: o direito à vida sexual e amorosa dos deficientes. A posição tradicional e secular das instituições e associações católicas a este respeito era a de negar a estas pessoas o reconhecimento a uma vida sexual normal.
«Este problema foi muitas vezes afastado ou enfrentado de modo superficial e até ideológico», disse o Papa, para quem a «dimensão sexual é intrínseca à própria pessoa que, criada à imagem e semelhança de Deus Amor, é originariamente chamada a realizar‑se no encontro e na comunhão».
João Paulo II não dá indicações precisas na prática, mas alude a uma pedagogia já experimentada nos ambientes eclesiásticos: «uma vida comunitária intensa e estimulante, um apoio educacional contínuo e discreto, a promoção de contactos amigos com pessoas preparadas e o desenvolvimento do sentido do pudor como respeito da própria intimidade».
Segundo disse ao DN, em Roma, o padre Domenico, franciscano envolvido na realidade das pessoas deficientes, «quando João Paulo II afirma isto, está a apontar para o reequilíbrio afectivo do indivíduo com deficiência, para o ajudar a viver as relações pessoais de forma compensadora».
Sem nenhuma alusão directa ao matrimónio como meio único e indispensável para uma vida sexual, o Papa considera que a exclusão das pessoas com deficiência mental se deve ao facto de não poderem assumir as obrigações, direitos e votos do matrimónio.
«0 discurso do Papa é muito novo e corajoso, e quebra um tabu. É sem dúvida um sobressalto para leigos e católicos», diz o padre Domenico. E conclui: «Quando João Paulo II fala de educação afectivo‑sexual neste contexto, a palavra sexual tem o mesmo significado que na educação dos futuros sacerdotes, que não se casam, mas devem conseguir um equilíbrio afectivo, controlando e sublimando emoções sexuais».
Autoria de Manuela Paixão, Correspondente DN em Roma
Artigo publicado no DIÁRIO DE NOTÍCIAS, de 18 de Janeiro de 2004, secção «Sociedade», pág. 23