0 rastreio do cancro colo‑rectal poderia salvar vidas
Por dia morrem nove portugueses vítimas de cancro colo-rectal. Um simples exame de rastreio ajudaria a prevenir o aparecimento deste tipo de cancro. Mas o único centro de rastreio do país ‑ Mirandela ‑ está praticamente parado. E o Plano Oncológico Nacional (PON) «não tem acção nenhuma no terreno».
A acusação é do presidente da Sociedade Portuguesa de Endoscopia Digestiva (SPED) e Gastrenterologista do Instituto Português de Oncologia de Lisboa, Nobre Leitão, que critica a ineficácia do PON 2001‑05. «Nunca foi realizável e está desajustado. Ao nível do cólon, é um chorrilho de asneiras e as poucas acções que temos, como o rastreio do cancro da mama e o rastreio do cancro do intestino, não passam pelo Governo», afirma Nobre Leitão. A «falta de vontade e de competência» são os motivos encontrados para justificar a falta de programas de rastreio de alguns cancros.
Mas se o PON não tem sido eficaz, os projectos existentes para além do Plano também não têm resultado. Em Mirandela nasceu há cerca de dois anos o primeiro centro de rastreio do cancro do cólon. Este tipo de cancro pode ser detectado a tempo de evitar cirurgias. Como realça Venâncio Mendes, coordenador do centro, dos 400 utentes rastreados «20 por cento tem pólipos, que podem ser tratados sem recurso a cirurgia».
As estatísticas indicam que 95 por cento dos casos de cancro colo‑rectal começam precisamente por ser pólipos. Em 2001, morreram 3176 portugueses com este tumor maligno. Mas nem os números (negros) parecem motivar o Estado a investir no rastreio. «Havia um protocolo com a Misericórdia, para comparticipar os exames, mas como deixou de ser possível haver acordos com as IPSS, o centro está em marcha muito lenta», lamenta Venâncio Mendes.
Os exames de rastreio do cancro colo‑rectal podem custar até 75 euros, e de acordo com o especialista «a análise custo‑benefício é muito positiva». Recentemente foi lançado um projecto piloto pela ARS Norte, «errado do ponto de vista científico e onde se está a desperdiçar muito dinheiro», afirma Venâncio Mendes.
Artigo da autoria de Edgar Nascimento, publicado no jornal CORREIO DA MANHÃ, de 5 de Janeiro de 2004, secção «Sociedade», pág. 17.