Todos os dias morrem em Portugal oito pessoas vítimas de tumor no intestino
« Todos os dias morrem em Portugal oito pessoas vítimas de cancro no cólon ou no recto. Por ano, são cerca de 3000 os portugueses que perdem a vida devido a este tumor, o que mais mata no país, e perto de 5000 os novos casos diagnosticados. Cerca de 60 a 80 por cento das mortes podiam ser evitadas se se apostasse no rastreio da patologia, acreditam os especialistas. E os custos da despistagem da doença são inferiores aos que o Estado tem que suportar com os pacientes que desenvolvem tumores malignos.
Em traços gerais, são estas as conclusões de um estudo levado a cabo pelo serviço de Gastrenterologia do Instituto Português de Oncologia (1PO) de Lisboa, em articulação com a Universidade Católica, apresentado anteontem, no Porto, no decorrer do Congresso Nacional de Gastrenterologia e Endoscopia Digestiva, que hoje termina.
0 estudo, concluído no início deste ano, envolveu cerca de 1400 homens e mulheres com mais de 50 anos que tinham já sido rastreados no IPO. Um primeiro exame, explicou ao PÚBLICO Carlos Nobre Leitão, director de serviço de Gastrenterologia daquela unidade de saúde, permitiu detectar cancros na sua fase inicial ou lesões pré-malignas de elevado risco em 2,7 por cento dos indivíduos. Cinco anos depois, alguns dos doentes repetiram o rastreio, que registou 1,12 por cento de lesões adicionais.
O primeiro exame custou 85,4 euros; o custo total dos dois rastreios ascendeu aos 127 euros. Os investigadores fizeram as contas e perceberam que o custo do diagnóstico de uma lesão - cancro ou lesão pré-maligna de elevado risco -, se fixou nos 3165 euros quando só se fez um só exame e subiu para os 3733 euros quando foram feitos dois.
Carlos Nobre Leitão não tem a mínima dúvida: «Estes números justificam de imediato a aposta no rastreio.» Embora não haja indicadores precisos que permitam calcular os custos do Estado com os doentes oncológicos, o esforço financeiro de desenvolver o rastreio é menor, adianta o especialista. «Operar um doente com cancro no cólon ou no recto, manté-lo internado, administrar-lhe tratamentos de quimioterapia, pode custar 25 mil euros. Depois, há as consultas posteriores, os gastos com medicamentos ...», ilustra Carlos Nobre Leitão. "Se evitarmos a morte de um doente, estamos já a pagar milhares de rastreios", acrescenta.
0 director de serviço do IPO faz questão de lembrar que, tendo em conta que o tumor pode não provocar quaisquer sintomas durante vários anos, a despistagem é o único método que pode evitar a doença. Excepção feita ao caso do cancro da mama, diz, em Portugal formalmente não se faz qualquer tipo de rastreio".
Para além de Lisboa, onde funcionam consultas de despistagem no IPO e Hospital Egas Moniz, Mirandela foi a primeira cidade portuguesa dotada de um centro especifico de rastreio do cancro do cólon, que funciona desde Maio de 2002. Foram já observadas 400 pessoas e diagnosticados cinco cancros. Foram detectados pólipos em vinte por cento dos doentes; destes, dois por cento eram adenomas de risco (os pólipos que acabam por degenerar em cancro), explicou Venâncio Mendes, director do serviço de Gastrenterologia do Hospital de Mirandela.
0 risco de aparecimento de cancro no cólon ou no recto é de 1 para 20 indivíduos. 0 rastreio, aconselham os médicos, deve ser feito pelas pessoas com mais de 50 anos e pelas que têm casos de polípos ou alguns tipos de cancro na família. A despistagem de lesões pode ser feita através de vários exames complementares: a pesquisa de sangue oculto nas fezes, a sigmoidoscopia, que permite a visualização do lado esquerdo do intestino, e a colonoscopia, que possibilita a observação de todo o intestino.
Um relatório da Organização Mundial de Saúde divulgado em Abril dava conta de que, por ano, são registados em todo o mundo 940 mil novos casos de cancro do cólon. »
Autoria de Sandra Silva Costa
Artigo publicado no jornal PÚBLICO, de 7 de Junho de 2003, na secção «Sociedade», pág. 27